Imagens: Divulgação
p/ Gilson Romanelli
As declarações recentes de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, acenderam os holofotes sobre os bastidores da política nacional e expuseram uma fratura imediata dentro das articulações da centro-direita. Ao afirmar em evento empresarial que o senador Flávio Bolsonaro tem “chance zero” de vitória e que os partidos do Centrão já flertam abertamente com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, Kassab operou na sua frequência habitual: a do pragmatismo frio e da leitura nua de conjuntura. No entanto, a política não se faz apenas de cálculo pragmático; faz-se também de identidade e sinalização ao eleitorado. Foi justamente nessa frequência que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, precisou intervir categoricamente.
O cálculo de Kassab e o ruído na chapa
A leitura de Kassab baseia-se na tese de que a candidatura de Flávio Bolsonaro perderia tração ao ter seu histórico devassado no debate público, além de sugerir que a própria esquerda prefere esse cenário por enxergar no senador um adversário mais factível no segundo turno. Além disso, ao vocalizar que o Centrão marcha em direção ao Planalto, Kassab projetou uma imagem de inevitabilidade da governabilidade em torno do atual governo. O problema é que, para uma chapa que busca se consolidar como alternativa conservadora e liberal ao PT, a fala soou como uma capitulação antecipada ou, no mínimo, uma insinuação de que o PSD atuaria como linha auxiliar de Lula em um eventual segundo turno.
A demarcação irredutível de Caiado
A reação de Ronaldo Caiado foi rápida e politicamente cirúrgica. Pressionado por sua base conservadora, o governador goiano não deixou margem para ambiguidades:

“Em nenhuma hipótese, em nenhum cenário, em nenhum turno, eu estarei ao lado de Lula ou do PT.” Caiado resgatou suas quatro décadas de trajetória pública — desde a fundação da União Democrática Ruralista (UDR) até a liderança no impeachment de Dilma Rousseff — para reafirmar que sua pré-candidatura ao Planalto nasce para derrotar a esquerda, e não para compor com ela. Para o governador, qualquer sinal de vacilo ideológico destruiria a credibilidade construída junto ao eleitorado de direita.
O que o episódio revela
O choque de discursos expõe o dilema central da centro-direita rumo às próximas eleições: Pragmatismo partidário vs. Fidelidade ideológica: Enquanto lideranças partidárias buscam manter pontes abertas com o poder central para garantir governabilidade e fundo eleitoral, os candidatos de ponta precisam demonstrar firmeza ideológica para não perderem seus eleitores para a polarização. A disputa pela hegemonia da oposição: A fala de Kassab e a resposta de Caiado mostram que a reorganização da oposição passa por definir quem realmente tem capacidade de liderar o campo anti-PT sem transigir com o governismo. O episódio deixa claro que, embora o PSD seja um gigante hábil no xadrez de alianças, a construção de uma candidatura presidencial de oposição exigirá mais do que pragmatismo de bastidor — exigirá definições claras de lado. E Ronaldo Caiado já avisou de que lado do muro pretende ficar.
Gilson Romanelli Jornalista e Analista Político





