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O Inventário do Mito: Michelle e a Faca na Mesa da Sucessão

Divulgação

A ex-primeira-dama puxa a tomada do PL Mulher, sobe o preço do passe e avisa ao clã Bolsonaro que a herança simbólica tem dona.

p/ Gilson Romanelli

A ameaça de Michelle Bolsonaro de abandonar a corrida ao Senado Federal não deve ser lida como um mero soluço de madrasta ofendida. O que se assiste nos bastidores de Brasília é política em estado bruto: uma disputa feroz por herança, controle de máquina partidária e um aviso explícito e direto ao clã. Ela entendeu, muito antes dos filhos biológicos do ex-presidente, que o patriarca se transformou em um ativo judicialmente tóxico.

O que restou foi o espólio — e Michelle quer a chave do cofre. Esse espólio não é irrelevante: compreende o eleitorado evangélico, as mulheres conservadoras, a estrutura capilarizada do PL Mulher, as redes locais, o direcionamento de candidaturas, os milionários recursos do fundo partidário, o palanque e a narrativa. Conquistar uma cadeira no Senado pelo Distrito Federal seria excelente — garantiria mandato, foro, tribuna e musculatura —, mas o plano desenhado por Michelle é consideravelmente maior: deixar de ser apenas a “mulher do mito” para se consolidar como a fiadora incontornável do pós-bolsonarismo. O movimento expõe as fragilidades e a dependência dos enteados. Flávio Bolsonaro precisa dela de forma vital para parecer palatável ao eleitorado feminino. Eduardo necessita de sua imagem para não ser reduzido a um exilado político berrando em inglês no WhatsApp. Carlos precisa dela para projetar publicamente uma ilusão de afeto familiar onde, na realidade prática, opera apenas um bunker digital de ressentimentos. Michelle decifrou a fragilidade masculina que sustenta o bolsonarismo: uma estrutura com muita testosterona de teclado, mas escassa capacidade de dialogar com as mulheres sem recorrer à imposição de ordens. Segundo o analista Júlio Benchimol Pinto, Michelle compreendeu antes mesmo dos enteados que Jair Bolsonaro já virou um morto-vivo eleitoral: ele ainda respira, soluça e assusta seus opositores, mas o seu inventário político já está exposto sobre a mesa de negociações. Enquanto os filhos do ex-presidente se digladiam pelo controle do “cercadinho”, pelas chaves do PL, pelas senhas dos palanques e pela relíquia afetiva resumida no mantra “meu pai mandou”, Michelle efetuou a jogada mais astuta do tabuleiro: protocolou no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o cercamento do sobrenome Bolsonaro em dezenas de marcas comerciais. “A ex-terceira-dama não busca apenas a bênção do patriarca; ela exige o selo, o rótulo, a embalagem. Quer o perfume, o vinho, a faca, o isqueiro, o vape e se bobear, até a munição ungida.” Trata-se do bolsonarismo em sua nítida fase de inventário litigioso. Madrasta, enteados, legenda e votos são disputados palmo a palmo antes do último suspiro político do chefe. O que antes vendiam sob o rótulo de “família tradicional” revelou-se, sob a luz dos fatos, uma holding afetiva com a Bíblia exposta na mesa, a faca guardada na gaveta e pedidos de patentes no protocolo. No fundo, Michelle não rompeu simplesmente com os enteados; ela apenas percebeu a regra máxima do pacto de corvina: quem demora a morder a presa acaba ficando apenas com a espinha. Ao se afastar recentemente da presidência do PL Mulher, a justificativa oficial de “cuidar da família” serviu apenas como uma embalagem piedosa para o consumo público. O conteúdo real dessa decisão é a pura demonstração de poder. Michelle desligou a tomada da máquina que ela própria ajudou a construir para escancarar ao partido, a Valdemar Costa Neto e aos enteados o tamanho exato do prejuízo político decorrente de sua ausência. O PL Mulher jamais operou como um enfeite cor-de-rosa na legenda. Transformou-se em uma poderosa rede de formação, recrutamento, células locais e planilhas, operando como uma espécie de “Tupperware teopolítico”: onde entra café, sai militância engajada. Flávio descobriu tarde demais que herdar o sobrenome do pai não acarreta a herança automática do voto feminino. Sem Michelle, a articulação da direita tradicional perde o magnetismo e assume a delicadeza truculenta de um grupo de WhatsApp administrado por coronéis aposentados. Ao suspender o empréstimo de sua imagem materna, cristã e cuidadora ao projeto centralizador dos filhos de Jair, Michelle enviou um recado nítido: ou assume a sucessão como uma força real de comando, ou o clã terá de carregar esse presunto eleitoral sozinho. A recente crise no Ceará operou apenas como o fósforo em um terreno já inflamável. O incêndio principal reside na disputa pela herança simbólica. Jair Bolsonaro segue espectador de seu próprio declínio: um patriarca decorativo, um santo de parede rachada assistindo à própria família disputar a carniça eleitoral com a delicadeza cristã de um leilão de bens. Michelle pode voltar, cobrar ainda mais caro, trocar de palanque ou consolidar-se como a vice ideal de uma nova liderança. O fato primordial, contudo, já foi consumado: a pregadora da família tradicional cansou-se da submissão e assumiu o controle do inventário.

GILSON ROMANELLI é Jornalista e Analista Político

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