Imagens: Divulgação
p/ Gilson Romanelli
Olhar para a história recente do Brasil é confrontar um enigma que desafia a lógica, a ciência política e, para muitos, até a compreensão espiritual.

A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República e a subsequente consolidação do movimento que leva seu nome deixaram marcas tão profundas no tecido social que a sensação de perplexidade continua viva. Como uma nação multicultural, vibrante e historicamente acolhedora permitiu-se seduzir por uma retórica baseada na divisão, no falso moralismo e na negação da ciência? Para muitos observadores, o período recente assemelha-se a uma espécie de carma espiritual ou provação coletiva, um teste de fogo para a maturidade democrática do país.

O aspecto mais alarmante desse fenômeno não reside apenas nas limitações técnicas ou na postura do ex-mandatário e de seus familiares — como a persistente movimentação de seus filhos, a exemplo de Flávio Bolsonaro, para se manterem no topo do xadrez dinástico do poder.

O verdadeiro cerne da crise está na eficácia da engenharia de alienação que o bolsonarismo implantou. Conseguiu-se criar uma realidade paralela onde a verdade factual foi substituída pela crença individual. No ecossistema dessa vertente política, as leis, as regras institucionais e o pacto social perdem valor diante do “eu acho” e do “eu acredito”.

Cientistas políticos e sociólogos apontam que o bolsonarismo logrou êxito em algo que a própria Ditadura Militar — um dos períodos mais sombrios da nossa história — não conseguiu com a mesma capilaridade: a formatação de uma cegueira deliberada em massa. A metáfora do torturado que defende o torturador ilustra com precisão o nível de dissonância cognitiva instalado. Trata-se da entrega voluntária da própria capacidade crítica em nome de um messianismo político que prega o ódio disfarçado de patriotismo e a intolerância sob o manto da moralidade.

A farsa dessa estrutura, embora nítida para analistas e defensores dos pilares democráticos, mantém-se resiliente através de uma engrenagem de desinformação contínua. Por essa razão, as projeções mais sóbrias da ciência política deduzem que o Brasil demorará décadas para desinfetar seu cenário público dessa herança extremista. O bolsonarismo ultrapassou as barreiras de um partido ou de um mandato; tornou-se uma subcultura enraizada.

Superar essa fase e evitar o risco de retrocessos dinásticos exigirá do Brasil mais do que simples alternância de poder nas urnas. Será necessário um esforço geracional de educação cívica, o fortalecimento das instituições e, acima de tudo, o resgate da empatia e do respeito à verdade factual. O processo de cura de uma nação que flertou de forma tão intensa com o próprio retrocesso será lento, mas fundamental para que o país volte a se reconhecer no espelho da civilidade.
Gilson Romanelli é Jornalista e Analista Político




